2 de out. de 2009

Gripe suína, gripe aviária, sarampo: carma nosso?

Concluindo o tema do relacionamento entre humanos e animais do ponto de vista do Espiritismo, já abordado nos três posts anteriores (cuja leitura prévia recomendamos, aliás: Humanos e animais: quem são os irracionais?, Os animais têm alma? e Precisamos virar vegetarianos?), hoje falaremos, finalmente, de medidas outras que não o vegetarianismo para tratar com amor e respeito os animais.

O leitor deve estar curioso, no entanto, para saber o porquê do título do nosso post, o que teria ele a ver com o tema proposto. Vejamos o que essas três doenças, gripe suína, gripe aviária e sarampo têm em comum: são todas doenças graves, e causadas por vírus.

Mas não pára por aí: as três são moléstias que acabaram atingindo (em cheio) nós, humanos, por conta da criação intensiva (em especial na modalidade de confinamento) dos principais animais que consumimos, a saber, porcos, aves, e gado, respectivamente.

Assustador, não? Pois espere, pode ficar ainda pior. Veja o que diz a revista SUPER interessante de agosto de 2009 (ed. 268), em sua matéria de capa, "Os verdadeiros donos do mundo" (grifos nossos):

Há 10 mil anos o homem descobriu um modo de vida mais eficiente que a caça: a agricultura e a criação de animais. [...] Com os primeiros criadouros, passamos a conviver com quantidades industriais de fezes, urina e outras secreções do gado. Além disso, a domesticação aumentou muito a população desses animais. Mais corpos para os vírus invadirem. E variações mais letais desses micro-organismos começaram a aparecer no gado. Era questão de tempo para que algum vírus assim saltasse para nós.

E foi o que aconteceu. Quem diz é a genética. Nos últimos anos, a ciência ganhou o poder de rastrear a origem dos vírus. [...] Nisso, concluíram que o vírus do sarampo é parente de um que ataca o gado, da peste bovina. Ou seja: o vírus dos bois passou por uma mutação genética na época das primeiras criações e adquiriu o poder de invadir pessoas. Invadir e, agora, matar sem dó [...]

Se o sarampo veio da criação de bois, a gripe é um filhote dos chiqueiros e galinheiros. O caminho do influenza começa nas aves selvagens, que carregam o vírus sem ter como infectar humanos. [...] Durante suas migrações, os pássaros selvagens acabavam bebendo água nos reservatórios das criações de galinha. E também faziam suas necessidades por lá. Aí as galinhas bebiam a água contaminada pelas fezes e pegavam o vírus. Como galinhas e porcos sempre foram criados meio juntos, não demorou para que surgisse algum vírus mutante dessa gripe aviária capaz de atacar os suínos. [...] Aí foi questão de tempo para surgir uma variação que infectasse o homem. No caso, o vírus da gripe humana.

Mas a festa do influenza não parou por aí. Os porcos ficaram vulneráveis à gripe humana e à aviária, além de terem a gripe exclusiva deles. Então até hoje acontece uma suruba genética lá dentro. E versões novas e imprevisíveis do vírus continuam aparecendo. É por isso que todo ano surge uma gripe diferente, que o nosso sistema imunológico não conhece. [...] Se a cada ano vem uma gripe nova, em intervalos mais longos aparecem algumas realmente violentas. Foi o caso de 1918. E de agora.

Apesar de o sistema de saúde hoje ser bem melhor que o do começo do século 20, os criadouros de vírus também são. Hoje há 1 bilhão de porcos no mundo. E quase 3 galinhas por habitante. Se o consumo de proteínas continuar crescendo nos países em desenvolvimento (o que é ótimo), esses números vão triplicar. E a chance de aparecer novas gripes mortais também.

Preocupante demais, não? Nosso consumo desenfreado de carne levou à criação de uma megaindústria de carne, que gera, cria e abate animais em massa, obtendo assim ganhos de escala e produtividade, e atendendo a uma demanda sempre crescente.

Se antes caçávamos para comer, hoje a indústria cria, confina e extermina para lucrar. E isso talvez não venha sem conseqüências: o número de doenças, cada vez mais letais, que vem surgindo deste evidente excesso de consumo e de criação de carne, está aí para nos fazer repensar hábitos.

Não poderia ser a destruição causada por estas doenças uma resposta à destruição que impomos aos animais, em atendimento à Lei de Causa e Efeito? Veja o que diz o Livro dos Espíritos, de Allan Kardec:

737 Com que objetivo os flagelos destruidores atingem a humanidade?
– Para fazê-la progredir mais depressa. Não dissemos que a destruição é necessária para a regeneração moral dos Espíritos, que adquirem em cada nova existência um novo grau de perfeição? É preciso ver o objetivo para apreciar os resultados dele. Vós os julgais somente do ponto de vista pessoal e os chamais de flagelos por causa do prejuízo que ocasionam; mas esses aborrecimentos são, na maior parte das vezes, necessários para fazer chegar mais rapidamente a uma ordem de coisas melhores e realizar em alguns anos o que exigiria séculos.

Pois é, talvez precisemos destas doenças arrasadoras, oriundas dos excessos industriais na criação de carne, para acordarmos para a realidade do mal que estamos causando, cada vez mais e em maior grau, aos animais.

Porém nem todos podem (e muitos não querem) virar vegetarianos, e não há problema algum nisso, segundo o Espiritismo (vide nosso post anterior): nosso corpo ainda grosseiro exige uma alimentação igualmente grosseira; no entanto, adotar o vegetarianismo não só hoje é possível, sem prejudicar a saúde (há exceções), como é também um belo e admirável gesto de amor ao próximo (no caso, aos animais), sinal de evolução espiritual própria, e tendência irreversível de progresso da moralidade humana.

Mas isso não nos exime, vegetarianos ou não, de repensarmos o modo como a carne é hoje produzida e consumida.

A indústria trata os animais como verdadeiros objetos indignos do menor resquício de dignidade: eles são mutilados, prensados, jogados para lá e para cá manualmente ou em máquinas, criados num confinamento tão absurdo que leva a um grau impensável de estresse (chegam a se auto-flagelar em desespero), muitos são simplesmente descartados e triturados vivos (muitas vezes logo após o nascimento, como ocorre no caso dos pintinhos, pois galos têm menor valor econômico que galinhas, já que não produzem ovos), e algumas das formas de abate são as mais cruéis possíveis.

Não podemos, nenhum de nós, virar as costas a essa realidade: a cada vez que consumimos carne de origem industrial, produzida com a única preocupação de obter o máximo lucro, estamos dando nosso aval a esse tipo de processo industrial.

E isso tem um caro preço, como se viu na reportagem da SUPER: para além das graves perturbações que infligimos em nossos irmãos animais, isso parece ter se voltado contra nós, enfim, na forma de doenças sucessivamente mais mortais.

Passou da hora de repensarmos nossas atitudes: embora fosse o ideal, não precisamos virar vegetarianos (de novo, como mostramos em nossa mensagem anterior); mas precisamos sim com certeza começar a pressionar a indústria para um tratamento mais digno dos seres destinados à alimentação, ao menos até o momento em que estivermos todos prontos a abandonar o consumo de carne.

Devemos trabalhar tanto quanto estiver ao nosso alcance para impedir a indústria de continuar com suas práticas grotescas de mutilação, confinamento, e agressões injustificadas outras. Valorizar e preferir carne de animais criados de modo mais tradicional (com menor grau de confinamento), como o frango caipira (criado solto na natureza), parece ser um ótimo primeiro passo.

Um trabalho muito admirável nesse sentido é o que vem fazendo o PETA (People for the Ethical Treatment of Animals, ou Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais), pressionando mudanças na legislação dos EUA para impedir a indústria de usar métodos cruéis contra animais, e fiscalizando a observância dessas leis. Por que não tentamos algo semelhante por aqui?

Não deve ser tão difícil tratar os animais destinados ao abate um pouquinho melhor. Talvez encareça o preço final do produto, e conseqüentemente reduza um pouco a demanda por carne; mas será que isto seria assim tão ruim? Não valeria a pena, não seria um gesto mínimo de amor ao próximo, enquanto não for o vegetarianismo universal?

São meros paliativos, claro, afinal só o completo abandono do consumo de carne resolveria de vez todos os problemas; mas ao menos são coisas pelas quais todos nós podemos trabalhar, sem precisar para isso mudar nossa alimentação desde já! E tudo isto reverteria, com o tempo, em grandes benefícios para nossos irmãos animais, e igualmente para nós, tanto no campo material (menos pandemias), quanto no moral e espiritual!

Por que não começamos a defender (e espalhar) essas idéias? Pense nisso! :)

2 comentários:

Unknown disse...

Como o artigo de hoje foi bastante extenso, e tem uma complexidade razoável, acabamos optando por publicá-lo apenas hoje (ao invés de quinta-feira, como originalmente planejado), e pular a mensagem de domingo; ou seja, nosso próximo post vem apenas na 3a feira, inaugurando temática nova!

Fiquem todos com Deus, tenham um ótimo fim de semana, e boa leitura!

Como sempre, fiquem à vontade para comentar, criticar, sugerir... Tudo muito bem-vindo! :)

JAIME IGLESIAS SERRAL disse...

Parabéns, parabéns, parabéns.... é gratificante encontrar outras pessoas com ideais de respeito aos animais.... um bife não é um bife.. um peito de frango não é somente um peito de frango... uma posta de peixe, também não... são todos animais que, de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, foram seviciados, torturados, asfixiados, tudo para alimentar a gula cada vez maior da humanidade.. não há indústria voraz sem consumidores vorazes.... o processo industrial é apenas a resposta do consumo desenfreado, irracional e egoísta das pessoas.... o verdadeiro espírita, sim, tem de trabalhar para alcançar o vegetarianismo, como deve trabalhar para alcançar o amor ao próximo de forma plena... são todas coisas interligadas, na medida em que o Universo é um só, tudo faz parte de tudo, e o amor a Deus passa, antes, pelo amor irrestrito à criação.. Jesus disse. "antes de fazer a oferenda ao pé do altar, vá e te reconcilia com teu irmão".. pois a reconciliação não é somente com nossos irmãos humanos, mas com o planeta, com a vida plena que pulsa por todos os lados, nisso incluídos, obviamente, estes espíritos simples e ingênuos que habitam os corpos físicos dos animais.... de novo, parabéns e que mais matérias como esta venham a ilustrar este blog...

Postar um comentário