Trata-se de assunto bastante polêmico, mesmo entre os espíritas. Basicamente, a questão que vamos tentar responder é: o Espiritismo exige que viremos vegetarianos? Ou melhor, em outras palavras: deixar de comer carne é uma exigência decorrente do nosso dever de tratar com amor e respeito os animais?
Em primeiro lugar, vejamos a questão 723, submetida aos espíritos por Allan Kardec no Livro dos Espíritos:
723 A alimentação animal é, para o homem, contrária à lei natural?
– Em vossa constituição física, a carne alimenta a carne; de outro modo, o homem enfraquece. A lei de conservação dá ao homem o dever de manter suas forças e sua saúde para cumprir a lei do trabalho. Ele deve, portanto, se alimentar conforme as exigências de seu organismo.
A resposta talvez decepcione os vegetarianos, já que defende o consumo de carne para a manutenção da saúde corpórea. Ora, não podemos esquecer, no entanto, que esse ensinamento nos foi compartilhado pelos irmãos espirituais em 1857, há mais de um século e meio.
Há 150 anos, com certeza, não havíamos ainda desenvolvido nossos conhecimentos técnicos e científicos a ponto de estudar alternativas nutricionais mais a fundo, e a resposta tem que então ser considerada em relação à situação da época, muito diferente da atual.
Hoje, para muitas pessoas, é possível manter uma alimentação perfeitamente saudável sendo exclusivamente vegatariano ou vegan. Há uma série de livros, artigos, blogs e sites por aí com ótimas dicas a respeito, basta consultar o Google (procure por "vegetarianismo", "vegetariano", "vegan", e assim vai)!
E o mais surpreendente é que os espíritos de 1857 não ignoraram essa questão, da evolução da alimentação humana, caminhando para um eventual abandono do consumo de carne. Na resposta 710, também do Livro dos Espíritos, eles nos ensinam, com muita clareza, que em mundos mais evoluídos a alimentação é totalmente diferente da nossa, sendo então bem menos grosseira:
710 Nos planetas onde o corpo é mais depurado, os seres vivos têm necessidade de alimentação?
– Sim, mas os alimentos estão de acordo com sua natureza. Esses alimentos não seriam muito substanciais para vossos estômagos grosseiros, do mesmo modo que, para eles, a vossa alimentação também não serviria.
Agora começa a fazer mais sentido a resposta 723, não? Pois espere só, vai melhorar ainda mais: veja o que nos dizem os mentores espirituais na questão 724 do Livro dos Espíritos:
724 A abstenção de alimento animal ou outro, como purificação, é meritória?
– Sim, se essa abstenção for em benefício dos outros; mas Deus não pode ver uma mortificação quando não é séria e útil. Por isso dizemos que aqueles que se privam apenas na aparência são hipócritas.
E com esta resposta, o quebra-cabeça está quase completo. Podemos tirar já algumas conclusões bastante válidas: comer carne era a única alternativa saudável em 1857, hoje não mais; além disso, deve-se ver com bons olhos a abstenção do consumo de carne, é um esforço digno de muito mérito; aliás, esta evolução da alimentação, tornando-se menos grosseira, e parando de depender do sacrifício de vida animal, é mesmo sinal de evolução da humanidade terrestre.
Mas por que os espíritos, então, não defenderam o vegetarianismo já em 1857? Bem, mais uma vez, por lógica, temos que interpretar uma obra sempre dentro de seu contexto. Cada mensagem espiritual vem em um dado momento, em um dado local, e tem que ser vista sob a ótica da sociedade deste tempo e lugar.
Assim como o Evangelho interpretado literalmente (ao invés de contextualmente) pode dar margem a uma série de abusos, o mesmo pode ocorrer com o Livro dos Espíritos; embora este, com certeza, por ser mais recente, e por passar ensinamentos de forma mais direta e objetiva (já que não usa narrativas), dê uma margem muito menor a interpretações equivocadas.
E quer ver o mais curioso disso tudo? Os próprios mentores espirituais responsáveis pelo Livro dos Espíritos nos fazem essa ressalva, e Kardec belissimamente tece algumas considerações a respeito, inclusive sobre a questão do vegetarianismo:
182 Podemos conhecer exatamente o estado físico e moral dos diferentes mundos?
– Nós, Espíritos, só podemos responder de acordo com o grau de adiantamento em que vos encontrais. Portanto, não devemos revelar essas coisas a todos, visto que nem todos terão alcance de compreendê-las, e isso os perturbaria.
Comentários de Kardec: À medida que o Espírito se purifica, o corpo que o reveste se aproxima igualmente da natureza espírita. A matéria torna-se menos densa, ele não mais se arrasta em sofrimento pela superfície do solo, as necessidades físicas são menos grosseiras e os seres vivos não têm mais necessidade de se destruírem mutuamente para se alimentar. O Espírito é mais livre e, para atingir coisas distantes, tem percepções que nos são desconhecidas. Ele vê pelos olhos do corpo o que apenas pelo pensamento podemos imaginar.
A purificação dos Espíritos reflete-se na perfeição moral dos seres em que estão encarnados. As paixões brutais se enfraquecem e o egoísmo dá lugar a um sentimento fraternal. É desse modo que, nos mundos superiores à Terra, as guerras são desconhecidas, os ódios e as discórdias não têm motivo, porque ninguém pensa em fazer o mal a seu semelhante. A intuição que têm do futuro, a segurança que uma consciência livre de remorsos lhes dá, fazem com que a morte não lhes cause nenhuma apreensão, por isso a encaram sem temor e a compreendem como uma simples transformação.
A duração da vida nos diferentes mundos parece ser proporcional ao grau de superioridade física e moral desses mundos, e isso é perfeitamente racional. Quanto menos material é o corpo, menos está sujeito às alternâncias e instabilidades que o desorganizam. Quanto mais puro é o Espírito, mais livre das paixões que o destroem. Esse é ainda um benefício da Providência que, desse modo, abrevia os sofrimentos.
Belos ensinamentos! Apenas para concluir, então, vamos responder a questão proposta no início do post: pois é, ao que parece, não há o dever de se tornar vegetariano. Não faria sentido, aliás, impor isso a alguém: tiraria mesmo o mérito deste gesto de amor, que deve ser sempre uma opção individual.
Além disso, algumas pessoas, por suas características físicas, não podem ser vegetarianas; dependem mesmo, por orientação médica, do consumo esporádico ou habitual de proteína animal. Certamente, com o tempo, nossa Medicina evoluirá a ponto de suprir estas necessidades de pessoas específicas; até lá, elas não têm nem como considerar parar de comer carne.
As demais pessoas, sem qualquer impedimento ao vegetarianismo, no entanto, deveriam (idealmente) considerar essa alternativa com carinho. Nosso consumo desenfreado de animais vem ensejando uma série de verdadeiros horrores por parte da indústria, comparáveis aos perpetrados pelo nazismo nos campos de concentração (você provavelmente já viu algum vídeo a respeito).
Abandonar o consumo de carne seria, dos sacrifícios pessoais, um dos mais belos e meritórios, pois feito puramente em favor de nossos irmãozinhos (ou irmaozões) menos complexos, os animais. É uma questão evolutiva até: a moralidade terrestre parece caminhar neste sentido, há uma crescente tendência.
Quem ainda não pode ou não quer (por qualquer motivo) se adiantar ao seu tempo, virando vegetariano desde já, poderia, ao menos, defender a adoção de paliativos, em prol de um tratamento mais amoroso e respeitoso dos animais nos criadouros e nas casas de abate, tal como: o fim do confinamento, das mutilações, do abate violento/doloroso...
Mas essa questão de como tratar com mais amor os animais, hoje e já, e mesmo sem a adoção do vegetarianismo (embora isto parecesse o ideal), vamos explorar mais a fundo em nosso próximo post! Que Deus abençoe todos!
